Miguel Moreira Rato
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Prazeres
Cachimbar… sempre



À mesa reúnem-se pessoas muito diferentes. No entanto, a paixão é comum: os cachimbos e tudo o que rodeia esse mundo de odores quentes.

Reunidos à mesa apenas por uma causa: fumar cachimbo. Os encontros são frequentes, criados e incentivados pelo Cachimbo Clube de Portugal, formado em 1984 por um grupo de 12 fumadores de cachimbo do Algarve e de Lisboa. Hoje, já alargado a várias regiões do país, o Cachimbo Clube promove várias iniciativas, realiza concursos de cachimbos e actividades internacionais com clubes congéneres. Tudo para difundir o gosto e a arte de fumar cachimbo.

Os jantares de confraternização já são a actividade mais antiga. À volta da mesa, de preferência recheada de iguarias, fala-se sobre cachimbos, tabacos, marcas, mas mais ainda, sobre experiências. Tudo gente diferente. São médicos, economistas, advogados, jornalistas ou engenheiros unidos uma vez por mês para grandes cachimbadas.

Páginas de uma investigação
“Não sendo pretensioso, este livro é a mais completa investigação de marcas de cachimbo que existe”. A afirmação é do autor do livro “Cachimbos - Marcas, Fabricantes e Artesãos”, de José Manuel Lopes, presidente do Cachimbo Clube, jornalista, fumador e coleccionador de cachimbos desde os 16 anos.

Há mais de uma década que começou a pegar nos cachimbos e a tirar notas sobre a colecção que tinha e das colecções dos membros do Clube. Notas que completavam aquilo que já conhecia e tinha visto nas várias viagens ao estrangeiro. “Tudo era feito para ficar apenas no meu bloco de notas”, confessa. Quando percebeu a informação que tinha já reunido começou a desenvolver um estudo sobre cada marca de cada cachimbo que tinha conhecido através de várias pessoas. É por isso que costuma dizer que este livro “é feito por mim mas com a colaboração de muita gente. É impossível fazer um livro destes sozinho”. O processo começou a engrenar. Sempre que via uma assinatura diferente (normalmente feita com um desenho de um cachimbo que descreve a marca e o modelo) nos e-mails que recebia, tentava obter mais informações que lhe chegavam um pouco de todo o mundo. Passar do bloco de notas para o livro, só depois de muitos colegas de cachimbadas terem começado a insistir para que José Manuel Lopes publicasse toda aquela informação. Era preciso partilhar. E assim foi.

Para o jornalista, este livro foi um desafio gratificante, ainda mais depois de ter começado a receber elogios de “entendidos” estrangeiros na matéria. “Muitas pessoas estranham ser um português a escrever um livro de cachimbos, pois teria mais lógica se fosse um inglês, um italiano ou um alemão, porque a cultura de cachimbo deles é muito maior e as marcas deles são muito mais expressivas”.

Mulher número um dos cachimbos
Quando leu num jornal que uma senhora tinha ganho um concurso de cachimbo, a expressão não foi totalmente convincente: “que giro!”, mas o facto de trabalhar perto de uma loja de cachimbos levou-a a entrar num novo mundo, ainda hoje liderado por homens. Paula Coelho, bancária de profissão, começou então a fumar “por brincadeira” e foi aperfeiçoando aquilo que considera ser “a arte de fumar cachimbo”. Daí a se tornar uma aficionada por tudo o que tivesse a imagem do objecto foi um pulo. São cachimbos, calcadores, tabacos, quadros, porta-chaves, fotografias, bonecos a fumar cachimbo e até brincos. Uma colecção imensa que Paula vai completando devagar, pois nesta área os materiais “são muito caros”. Mas a afirmação desta paixão foi concretizada o ano passado quando Paula Coelho participou, pela primeira vez, num concurso de cachimbos. Nestes concursos, cada concorrente recebe um cachimbo da mesma marca e modelo e três gramas de tabaco. Só se acende uma vez e ganha quem conseguir manter o cachimbo aceso mais tempo. Pois, ficou em segundo lugar no XII Campeonato Nacional de Fumadores de Cachimbo e foi a vencedora na classe de senhoras, com o tempo de um hora, 8 minutos e 55 segundos, batendo assim o novo recorde feminino.

Relíquia em casa
Jorge Silva Ferreira pertence ao clube há três anos. É com orgulho que nos jantares de convívio expõe aquilo que é considerado uma verdadeira “relíquia”: um livro de poesia sobre tabaco para cachimbo, de 1894. “Consegui adquirir o livro através da Internet onde, aliás, costumo comprar todos os cachimbos que tenho na minha colecção”. Uma colecção que hoje em dia faz questão de partilhar com outros amantes das cachimbadas porque “a colecção começou a crescer e agora já faz sentido mostrá-la”. Muitos não sabem, mas nos leilões da Internet arranjam-se estas e outras preciosidades e, muitas vezes, quem está a leiloar ou a colocar para venda, nem tem noção do que são.

Como preparar um cachimbo
O tabaco para cachimbo divide-se em dois tipos: os tabacos aromáticos e os tabacos “Latakia”, uma mistura de tabacos ingleses com tabacos orientais. Mais do que entender o que se pode fumar, a verdadeira arte está em acender o cachimbo e relaxar com os mil e um cheiros. Ficam as dicas.

O tabaco não deve estar nem muito solto (porque passa muito ar) nem colado demais (porque custa a passar o ar), mas esse acto de colocar o tabaco no cachimbo depende de cada pessoa e vai sendo aperfeiçoado conforme a experiência.

Depois, todo o tabaco deve ser queimado (girar o fósforo ou o isqueiro por toda a boca do cachimbo de forma a queimar todo o tabaco), sendo que o calcador é imprescindível para ajudar a compactá-lo. No entanto, diz quem sabe, que o maior segredo é fazer todo este processo com alma e não ficar preocupado se o cachimbo apagar. Porque fumar cachimbo não é e não deve ser uma coisa feita a correr.
 

 

 
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