À mesa
reúnem-se pessoas muito diferentes. No entanto, a paixão é comum: os
cachimbos e tudo o que rodeia esse mundo de odores quentes. Reunidos à mesa apenas por
uma causa: fumar cachimbo. Os encontros são frequentes, criados e
incentivados pelo Cachimbo Clube de Portugal, formado em 1984 por um
grupo de 12 fumadores de cachimbo do Algarve e de Lisboa. Hoje, já
alargado a várias regiões do país, o Cachimbo Clube promove várias
iniciativas, realiza concursos de cachimbos e actividades
internacionais com clubes congéneres. Tudo para difundir o gosto e a
arte de fumar cachimbo.
Os jantares de confraternização já
são a actividade mais antiga. À volta da mesa, de preferência
recheada de iguarias, fala-se sobre cachimbos, tabacos, marcas, mas
mais ainda, sobre experiências. Tudo gente diferente. São médicos,
economistas, advogados, jornalistas ou engenheiros unidos uma vez
por mês para grandes cachimbadas.
Páginas de uma
investigação “Não sendo pretensioso, este livro é a mais
completa investigação de marcas de cachimbo que existe”. A afirmação
é do autor do livro “Cachimbos - Marcas, Fabricantes e Artesãos”, de
José Manuel Lopes, presidente do Cachimbo Clube, jornalista, fumador
e coleccionador de cachimbos desde os 16 anos.
Há mais de uma
década que começou a pegar nos cachimbos e a tirar notas sobre a
colecção que tinha e das colecções dos membros do Clube. Notas que
completavam aquilo que já conhecia e tinha visto nas várias viagens
ao estrangeiro. “Tudo era feito para ficar apenas no meu bloco de
notas”, confessa. Quando percebeu a informação que tinha já reunido
começou a desenvolver um estudo sobre cada marca de cada cachimbo
que tinha conhecido através de várias pessoas. É por isso que
costuma dizer que este livro “é feito por mim mas com a colaboração
de muita gente. É impossível fazer um livro destes sozinho”. O
processo começou a engrenar. Sempre que via uma assinatura diferente
(normalmente feita com um desenho de um cachimbo que descreve a
marca e o modelo) nos e-mails que recebia, tentava obter mais
informações que lhe chegavam um pouco de todo o mundo. Passar do
bloco de notas para o livro, só depois de muitos colegas de
cachimbadas terem começado a insistir para que José Manuel Lopes
publicasse toda aquela informação. Era preciso partilhar. E assim
foi.
Para o jornalista, este livro foi um desafio
gratificante, ainda mais depois de ter começado a receber elogios de
“entendidos” estrangeiros na matéria. “Muitas pessoas estranham ser
um português a escrever um livro de cachimbos, pois teria mais
lógica se fosse um inglês, um italiano ou um alemão, porque a
cultura de cachimbo deles é muito maior e as marcas deles são muito
mais expressivas”.
Mulher número um dos
cachimbos Quando leu num jornal que uma senhora tinha ganho
um concurso de cachimbo, a expressão não foi totalmente convincente:
“que giro!”, mas o facto de trabalhar perto de uma loja de cachimbos
levou-a a entrar num novo mundo, ainda hoje liderado por homens.
Paula Coelho, bancária de profissão, começou então a fumar “por
brincadeira” e foi aperfeiçoando aquilo que considera ser “a arte de
fumar cachimbo”. Daí a se tornar uma aficionada por tudo o que
tivesse a imagem do objecto foi um pulo. São cachimbos, calcadores,
tabacos, quadros, porta-chaves, fotografias, bonecos a fumar
cachimbo e até brincos. Uma colecção imensa que Paula vai
completando devagar, pois nesta área os materiais “são muito caros”.
Mas a afirmação desta paixão foi concretizada o ano passado quando
Paula Coelho participou, pela primeira vez, num concurso de
cachimbos. Nestes concursos, cada concorrente recebe um cachimbo da
mesma marca e modelo e três gramas de tabaco. Só se acende uma vez e
ganha quem conseguir manter o cachimbo aceso mais tempo. Pois, ficou
em segundo lugar no XII Campeonato Nacional de Fumadores de Cachimbo
e foi a vencedora na classe de senhoras, com o tempo de um hora, 8
minutos e 55 segundos, batendo assim o novo recorde
feminino.
Relíquia em casa Jorge Silva Ferreira
pertence ao clube há três anos. É com orgulho que nos jantares de
convívio expõe aquilo que é considerado uma verdadeira “relíquia”:
um livro de poesia sobre tabaco para cachimbo, de 1894. “Consegui
adquirir o livro através da Internet onde, aliás, costumo comprar
todos os cachimbos que tenho na minha colecção”. Uma colecção que
hoje em dia faz questão de partilhar com outros amantes das
cachimbadas porque “a colecção começou a crescer e agora já faz
sentido mostrá-la”. Muitos não sabem, mas nos leilões da Internet
arranjam-se estas e outras preciosidades e, muitas vezes, quem está
a leiloar ou a colocar para venda, nem tem noção do que
são.
Como preparar um cachimbo O tabaco para
cachimbo divide-se em dois tipos: os tabacos aromáticos e os tabacos
“Latakia”, uma mistura de tabacos ingleses com tabacos orientais.
Mais do que entender o que se pode fumar, a verdadeira arte está em
acender o cachimbo e relaxar com os mil e um cheiros. Ficam as
dicas.
O tabaco não deve estar nem muito solto (porque passa
muito ar) nem colado demais (porque custa a passar o ar), mas esse
acto de colocar o tabaco no cachimbo depende de cada pessoa e vai
sendo aperfeiçoado conforme a experiência.
Depois, todo o
tabaco deve ser queimado (girar o fósforo ou o isqueiro por toda a
boca do cachimbo de forma a queimar todo o tabaco), sendo que o
calcador é imprescindível para ajudar a compactá-lo. No entanto, diz
quem sabe, que o maior segredo é fazer todo este processo com alma e
não ficar preocupado se o cachimbo apagar. Porque fumar cachimbo não
é e não deve ser uma coisa feita a correr.