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Edição do Cachimbo Clube de Portugal
Chicago 2004
Chicago 2004
Chicago é uma festa.

Vêm de todo o mundo por razões comerciais ou apenas para satisfazer a sua paixão e ‘hobby’. Durante três dias, a cidade norte-americana transforma-se na meca dos fumadores e coleccionadores de cachimbos.

É uma autêntica romaria. Ao todo, 277 ‘stands’ e mesas de expositores são a razão principal, mas não única, para o afluxo de milhares de pessoas ao Chicagoland International Pipe & Tobacciana Show . Coleccionadores ou simples fumadores de cachimbo, fabricantes e distribuidores de tabacos, artesãos e representantes de marcas, retalhistas, antiquários, jornalistas, lojas virtuais, comerciantes de acessórios do fumador marcam anualmente presença no Mega Center, em St. Charles, nos arredores de Chicago, para o maior e mais importante evento internacional do mundo do cachimbo. Em 2003, antes das portas do certame se abrirem a fila era já de 600 entusiastas. Este ano os mais apressados compareceram em menor número, mas a assistência cifrou-se em vários milhares de pessoas ao longo dos três dias. Só os participantes no ‘show’, oriundos de dezenas de países, foram responsáveis por 1.400 noites de reservas no Pheasant Run Resort, um complexo hoteleiro paredes meias com o recinto da exposição.

Frank P. Burla, um coleccionador de nomeada e mais sete outros membros do Chicagoland Pipe Collectors Club (CPCC) são a alma desta iniciativa. O evento está de tal forma ligado à vida de Frank que ele costuma referir que as suas filhas cresceram com a própria mostra: de uma exposição modesta no início, transformou-se no exemplo mundial dentro do sector. “O nosso objectivo é que as pessoas comprem, vendam troquem, que participem nos seminrários e fóruns, mas, sobretudo, que se divirtam. Esta convenção permite diversos actos, junta fumadores, coleccionadores, artesãos e comerciantes, e a presença de todos eles no ‘resort’ cria um ambiente especial, uma grande família, além de contribuir para a educação dos fumadores e para o aprofundamento dos seus conhecimentos sobre o cachimbo.”

Para avaliar a importância do certame basta referir que a maioria dos expositores faz a reserva de espaços com quase um ano de antecedência e que há sempre quem fique de fora. Muitos artesãos surgiram em Chicago como amadores, criando alguns cachimbos por ‘hobby’, e passado pouco tempo abraçaram a actividade como profissão com as suas peças a serem vendidas acima dos 500 euros.

Frank Burla evita citar números, mas os negócios realizados cifram-se em alguns milhões de euros. Só o ‘stand’ de um coleccionador de cachimbos de espuma de mar (‘meerschaum pipes’) estava avaliado numa fortuna. Para os mais abastados, a escolha é quase ilimitada: um estojo da Dunhill a 8.000 dólares, entre muitas outras peças da prestigiada firma inglesa; um pequeno armário com sete cachimbos do consagrado artesão dinamarquês Tom Eltang, por bastante mais; cachimbos usados do sueco Bo Nordh por 4.000 euros e que se vendem num ápice; antigos modelos da marca irlandesa Peterson; coleccões da elegante Castello, fundada pelo italiano Carlo Scotti e do mestre Luigi Radice, com os seus cachimbos adornados com conchas e bambus; fornilhos em madeira esculpidos por Thomasz Samzel, Kulpinsky e B. Antoniewsky, três dos melhores ‘carvers’ da Polónia; e expositores com colecções particulares dos insólitos trabalhos do jovem norte-americano radicado na Bretanha Trever Talbert ou de cachimbos Moretti com a forma canadiano, de Marco Biagini.

Jovens com futuro…
Feliz com a sua estreia em Chicago estava João Reis. O jovem artesão português, que está presentemente na Dinamarca a aperfeiçoar-se, foi alvo da curiosidade dos colegas e de muitos visitantes, e não se pode queixar do negócio: “O primeiro cachimbo que vendi foi um de 700 dólares”, afirmou pouco depois da inauguração da mostra. O Chicago Pipe Show tem servido, aliás, para o aparecimento de novos talentos e esta edição não fugiu à regra. Com apenas uma dúzia de cachimbos produzidos, Peter Heding, da Dinamarca, foi uma das surpresas pela perfeição evidenciada. Dos Estados Unidos, destaque para as pequenas (em quantidade) mas consistentes obras de Jody Davis, Michael Lindner e Todd Johnson (Stoa Briars), os areados (‘sandblast’) de Larry Roush ou as formas invulgares de Walt Cannoy, e a criatividade do canadiano Michael Parks e do romeno de origem Rolando Negoita. Impedido de sair do país durante um largo periodo, Rolando, 48 anos, deixou a sua Transilvânia em 1990 após o derrube de Ceausescu. Formado pela Escola de Belas Artes de Bucareste e especialista no trabalho de metais, é professor na conceituada Parsons School of Design de Nova Iorque e um designer multifacetado. Faz jóias, acessórios de moda - produziu para a Calvin Klein e Armani -, facas e nos últimos anos também cachimbos, um ‘hobby’ antigo que se transformou numa das suas vertentes profissionais. “Fumar cachimbo transmite-me uma grande tranquilidade”, afirma o artesão, que encontra inspiração para as suas peças não só em elementos da natureza, animais ou plantas, mas ainda em motivos do design industrial.

… e artesãos consagrados
Chicago, na verdade, junta a “nata” da produção mundial de cachimbos Dinamarqueses como Kent Rasmussen Kurt Balleby, Tonni Nielsen -que divide o seu tempo entre a oficina e as aulas de tènis -, Teddy Knudsen e Jess Chonowitsch não faltaram. Os trabalhos dos alemães Cornelius Maenz, Oliver e Max Brandt estavam representados, mas Rainer Barbi compareceu, mais uma vez, sendo inclusive orador numa conferência sobre as características da urze (‘Erica arborea’, cuja raiz fornece a madeira mais usada para fazer cachimbos), um dos debates mais interessantes. Bill Ashton-Taylor, de Inglaterra e o italiano Paolo Becker não deixavam dúvidas porque são apontados como mestres no ‘sandblast’. O francês Jacques Craen (marca Genod) expunha os seus ‘fait main’, que irá continuar a conceber apesar de estar à beira da reforma. Entre os norte-americanos, John Eells - “tenho as formas mais diversas na cabeça “ - evidenciava porque recebe inúmeras encomendas directas dos clientes; Lee Von Erck, com um estilo “muito EUA” e as suas canelas em espiral, também sobressaía, tal como Paul Bonaquisti com a sua visão particular dos desenhos clássicos e formas tradicionais. Takeo Arita, Gotoh, Smio Satou e Hiroyuki Tokutomi - que aprendeu a arte dos ‘freehands’ com o grande Sixten Ivarsson - formaram a “embaixada” japonesa. Discreto, quase pedindo desculpa por expor os seus conceitos, o velho Tokutomi trocava ideias com Tom Eltang sobre o processo de criação e a engenharia das peças. A conversa decorria noite fora, num dos bares do ‘resort’…

Por tudo isto, a convenção de Chicago é, mais do que uma iniciativa comercial, um palco para o intercâmbio de experiências entre os próprios artesãos. No conjunto, quase noventa criadores de cachimbos vindos de todos os continentes. Um acontecimento único.

Também os amadores encontram no certame tudo o que necessitam para se iniciarem: blocos de madeira, acessórios, ferramentas e equipamento, enfim todos os materiais essenciais. Quanto ao tabaco, a panóplia existente satisfaz os gostos mais diversos, com a vantagem de ali se encontrarem todas as variedades das excelentes misturas manufacturadas de G.L. Pease, Cornell & Diehl, McClelland e Samuel Gawith. E há ainda que acrescentar a realização do campeonato de fumadores dos Estados Unidos, a reunião anual dos filiados na United Pipe Clubs of America (UPCA), leilões, festas, jantar de gala e até mesmo um torneio de golfe…

“Estamos preocupados com algumas campanhas que estão a ser feitas contra os fumadores”, afirma Frank Burla. “As leis apertam, mas cremos que esta iniciativa é uma prova de que o charuto e o cachimbo são diferentes do cigarro. Esperamos que as autoridades o compreendam”, realça o principal obreiro do Chicago Pipe Show, que prevê um evento ainda maior em 2005. Chicago marca o calendário dos fumadores de cachimbo, apresenta as novidades, é uma festa. Para o ano há mais.

Texto: José Manuel Lopes (in Jornal "O Independente")



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