![]() |
![]() Edição do Cachimbo Clube de Portugal |
|
|
Por Carvalho Santos fotos de João Carvalho de Sousa «O meu nome diz a verdade da concepção de vida e estilização dos meus gostos», sendo o cachimbo a paixão maior. A brincar com o próprio nome, Prazeres Pais comenta que não existiria sem «o prazer dos pais» ! Quatro fumadas/dia ajudam-no a reflectir a vida e a aprofundar conhecimentos que voltaremos a abordar na Epicur. Prazeres Pais, 12 anos director do Estabelecimento Prisional de Lisboa, hoje com 59 a integrar um importante escritório de advocacia, em Lisboa. A sua carreira profissional saiu valorizada por ter representado Portugal num comité do Conselho da Europa, especializado na problemática da execução de penas. E em igual posição colaborou activamente com o grupo Pompidou. O nosso encontro para falar de cachimbos ocorre num jardim, surge-nos uma figura tão respeitável como, imediatamente se |
|
define, um humorista. Ao apresentar-se, Prazeres Pais estabelece a curiosa ligação do nome aos prazeres que tem. E conclui que não existiria «sem o prazer dos pais».
Uma pessoa assim, correcta, tolerante, bem disposta, num lugar daqueles, uma prisão, até pode recordar convívios, na medida do possível, agradáveis, mas... «Guardo muito boa lembrança das funções de director prisional. Refiro-me tanto a reclusos como a técnicos, guardas a funcionários. Será vaidade divulgar o due se dizia na cadeia quando me deslocava ao estrangeiro em qualquer missão? "Falta cá o cheiro do cachimbo do director."» Fala-nos como se fosse o «homem pensador», lema da casa Peterson. |
|
Explica, voltando à sua mais marcante experiência profissional: Muitas vezes o cachimbo foi o meu grande companheiro em momentos de reflexão a exigirem, algumas difíceis, tomadas de posição.» Nostálgico, assume que aquele período foi enriquecedor, ufana-se de «muita gente que esteve presa» o cumprimentar com um bom sorriso. Com os outros, os trabalhadores da prisão, encontra-se de vez em quando na Casa de Trás-os-Montes, «onde se come bem a barato». Completa: Também convivemos no Museu do Traje em almoços de confraternização.»
Advogado hoje, fuma mais do que ontem, director prisional? «Tenho uma regra. Só fumo depois do almoço e raramente ultrapasso as quatro fumadas, sendo a da noite muito suave, ou seja, o Night Cap, da Dunhill.» Profissional, e depois emocionalmente, Prazeres Pais está muito por dentro das coisas da justiça: «Todos, dentro dessa área, têm em comum o contacto das pessoas com as pessoas e com a problemática da vida. Na advocacia, ao contrário do que possa pensar-se, a intervenção, pelo menos no meu caso, é no essencial de carácter preventivo, logicamente tendente a que não se verifiquem futuros conflitos.» O nosso interlocutor é uma referência entre conhecedores a apreciadores de cachimbos, razão pela qual voltará à conversa na Epicur sobre bibliografia, coleccionismo, processos a materiais de fabricação, concepções estéticas, enfim, quase de tudo o que respeita a envolve o cachimbo. Poderá até contar histórias acontecidas com homens célebres - |
|
|
fumadores desportistas, do cinema a do mundo da arte, dos sonhos de Freud às manias de Georges Brassens... Por agora, apresentado ao leitor (e preparem-se os que adoram cachimbos para os nossos números futuros), tentaremos transmitir a primeira «lição», agradável numa aberta de sol, num jardim, com ele, o seu boné, o seu cão e, claro, um dos seus cachimbos preferidos. |
|
|
|
Como se começa a fumar cachimbo? No meu caso, desde os tempos de estudante em Coimbra. Talvez este costume aconteça cedo, embora se esteja sempre a tempo. Compara o sinal de fumo do cachimbo ao dos charutos? Diferente. Mas não tanto que de vez em quando eu não faça uma excepção, um bom puro, cohibazito ou trinidad... Já que fala assim, no seu léxico do fumo, moderado como diz, existe mais alguma variante? Chego a misturar «picadura», tabaco de charuto moído, com uma mescla de tabacos de cachimbo. É uma espécie de sal a pimenta!... Aliás, em Cuba vende-se «picadura» já feita. Nem todos sabem que a palavra cachimbo é mesmo portuguesa! Na sua origem está o termo angolano «capeche» ou «uncapeche». No resto da Europa, todos dizem «la pipe, la pipa, the pipe»... Repare, eles só falam no recipiente, enquanto nós identificamos o aparelho completo. Regras fundamentais para um fumador, quer fazer favor? Não usar duas vezes seguidas o mesmo cachimbo, devem ser pelo menos alternados. Eu use quatro, um para cada fumada. Repousam no mínimo 24 horas, outros hão de entrar ao serviço. E tem muitos? Não os conto, serão à volta de mil. Mil já é conta de coleccionador... Não propriamente. As minhas peças têm a ver com acontecimentos da vida. Por exemplo, uma viagem, aniversários e prendas de familiares e amigos. Marcam datas. Fora deste critério, compro peças que esteticamente me agradam. A qualidade entra no campo da escolha, embora o cachimbo que tenha em mãos seja em cada momento o melhor de todos. Afinal é conservador ou sequioso de mudanças? Falemos só de cachimbos. Nenhum é igual a outro. Cada um tem o seu paladar, cada um serve em diferentes circunstâncias a estados de espírito. O de logo a noite, à lareira (naquele dia), não será igual a este (o que fumava na tarde do dia tal, no tal jardim). O que entende por higiene de um cachimbo? Respondo com gosto, em poucas palavras. Para manter boa qualidade no fumo é essencial evitar alcatrões e nicotinas que podem fermentar no cachimbo. Essa transformação química é susceptível de provocar fragilização da madeira, até a sua destruição. E que representa queimar um cachimbo? Não é uma queima física, é antes a operação através da qual se forma a crosta mais conveniente. A talhe de foice... Que lhe ocorre? Durante a Expo-98 a Casa Sipil tentou lançar um cachimbo italiano da marca Castello, uma das melhores do mundo! Mas faltou-lhe apoio oficial... Sabia que existe uma colecção de dois cachimbos comemorativos do 11 Centenário da Revolução Francesa? - ButzChoquin. E que a Peterson fez sair na época passada dois exemplares em Dublin alusivos ao novo milénio? A expressão artística é uma das envolventes, pensamos... É de facto significativa. Outros aspectos, que não só os do fumo, os caracterizam. Desde o aproveitamento das veias da madeira, o olho de perdiz, assim se diz, outros vão condicionar a confecção para o melhor aproveitamento da matéria, de onde podem sair verdadeiros temas esculturais. Obras de escultor ou de artesão? Estou a lembrar-me de Tom Spanu, homem da Sardenha, um artesão de cachimbos com mérito mundialmente reconhecido. As autoridades da região oferecem aos visitantes exemplares da autoria dele. Tem coisas tão lindas! Eu tenho uma peça que é, nada mais nada menos, do que a figura estilizada do navio que faz a ligação ilha-continente. De resto, sem que o cachimbo seja indiferente a artistas de renome, um bom artesão também faz obra de arte. Fuma-se cachimbo porque dá estatuto, por simples mania, moda que já foi de ontem, ou por convicção inerente ao gozo que proporciona? Poderá haver muito boa (?) gente convencida de que andar com um bocado de madeira na boca a deitar fumo a confunde com artistas ou intelectuais. Porém, em realidade, o que também acontece com apreciadores de charutos, as fumadas de cachimbo exigem circunstâncias a estados de espírito bem definidos. Acto de prazer com rituais específicos? Sim, mais uma vez fazemos a comparação com o charuto. Fundamentais são a calma interior, a predisposição para a vivência de um instante, inclusive uma paragem no tempo para uma centelha de inspiração. A supressão quase total do «stress»? Exacto. Daí que em regra se torne em acto individual. Raramente se pratica em grupo, se acontece são momentos bonitos, em reuniões de amigos ou em qualquer confraternização em clubes de fumadores. Admite o sentimento de estima do utilizador pelo seu cachimbo? Diria profunda estima. O utilizador desfruta-o e cuida da sua higiene e conservação. Sem essa «amizade e cuidados», a reflexão e o prazer sofreriam cargas negativas. É, então, o mesmo que dizer que entre fumador e cachimbo há algo muito próximo da afectividade. Estes factores podem conduzir ao coleccionismo? Penso que nos últimos tempos está a acontecer entre nós uma renovação que eventualmente motiva os coleccionadores. Até já o sector feminino não renega o cachimbo! Começam por apreciar o cheiro... Tínhamos encaixado uma série de questões do género das que costumamos colocar na rubrica «Eu fumador me confesso». A cadeia de pensamentos, o ritmo de exposição de Prazeres Pais e a especificidade do tema fazem-nos virar algumas agulhas. Com prazer! E estamos convidados para percorrer um espaço com muitos livros de direito a imensas peças. Um escritório «forrado» com uns 500 cachimbos deve ser obra! |
![]() EPICUR © Todos os direitos reservados |